Marcus Groza

vinho manga losna ou cacau

o apetite dos convidados de uma casa em festa.
Luís da Câmara Cascudo

é amarga a vida diz um sincero
que nem tanat no primeiro gole

no início são fiapos de manga
aguerridos choupos ao vento

é o que respondo pois já nem
praguejo o visgo que se adere

e empedra no vão dos dentes
é uma manga a vida eu digo

é amarga repete o sincero
feito losna no dia seguinte

sinceridade é ateísmo açucarado
mesmo entre os mais crédulos

primeiro é tanino que amarra na boca
um gosto forte que água não leva

me lembra quando tudo salgado
da língua à garganta marrenta

como durante o sexo oral
não é sede na boca sedenta

a mim lembra bílis diz o sincero
que sobe em refluxo fermentado

e o palatante por fim experimenta
assombrações dos antigos manjares

entre arrotos azia e sabor azedo
é amarga a vida então eu penso

verdade é mancha no fundo da taça
o roxo que nos colore os lábios

amargor é vida eu digo
língua travosa cacau 100%




Marcus Groza é escritor, dramaturgo, encenador e pesquisador em ciências humanas. Também é autor dos livros "Milésima demão nas paredes de estar perdido" (Editora Urutau, 2019), e a lua como órgão principal (Ed. Primata, 2017), Sossego Abutre (Editora Patuá, 2015) e Do Buraco à Poça (Editora Patuá, 2013). No teatro, escreveu Tambor de Couro Vivo, Maré Morta e Rua Carne Entre as Articulações. É doutor em Artes Cênicas e editor da Revista Abate. Em 2018, o seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e publicado em Olvidar — Brumaria Works #9, coletânea impressa publicada em Madrid, Espanha.


BREVE ENTREVISTA COM O AUTOR