Alan Rezende

ainda tenho fome

hoje às 16:47 comprei mais um maço

um pacote de balas e um isqueiro azul

e percebi o quanto sou desgastado pela vida queimando a palha nova e sentindo o gosto dizendo por dizer, fazendo por fazer, escrevendo por escrever, servindo por servir vivendo por viver porque não quero morrer (ainda)

os problemas se acumulam e

coisas precisam ser pagas

a vida urge e o tempo é um rei gordo e soberbo gordo como a miséria

miséria de mais da metade da população brasileira e ai de mim, pobre homem que

tem preguiça de fazer contas e de

usar a calculadora

fazendo tantas contas de cabeça

ai de mim

se pudesse pagar pra viver invés de

viver pra pagar

porque os ratos continuam fazendo a festa no planalto eternamente simétrico e miseravelmente perfeito

miseravelmente inútil

há muito não mais me lembrava do

gosto de palha e de sangue na boca

de como queimar um cigarro e

como escolher um isqueiro de uma cor que me represente

mas quem sou eu?

sou só mais um

um que vive pelo dinheiro brasileiro e batalhador

de que adiantam os provérbios quer sejam adjetivos

de que adianta o ensino pra morrer de fome e de desejos ai, que preguiça



O Livro


mesmo que eu me entenda muitas vezes como o problema causado pela literatura menor ou como o patético poeta que não sabe amar, “sei que quando for verdade você vai saber” é, acima de tudo, uma obra sobre o amor e todas as suas nuances, sobre o quanto e de quantas formas fui capaz de amar e ser amado. enquanto vivemos tempos rasos, exploro neste livro o quão profundo e o quão sincero pude ser com meus próprios sentimentos e alcançar respostas enquanto ser, humano, vago, incerto, grande, inteiro, vazio e concreto. inconformado com a sociedade externa e alheia, busco aqui (e acima de tudo) externalizar minhas emoções mais profundas e me contradizer.


esse livro mente e, da mesma forma, nunca deixou de dizer a verdade. cabe ao leitor escolher no que acreditar e cabe ao leitor descobrir como ele mesmo sabe amar. o poeta nasce mau ou a sociedade o corrompe? ou outros o corrompem? o quanto somos dependentes uns dos outros? o quanto nos humilhamos para corresponder às nossas próprias expectativas?


o quanto a vida pode ser impiedosa e o quanto ela pode ser vil com aqueles que só querem vivê-la ou apenas sentir que estão vivos?


“[...] sei que quando for verdade você vai saber

sei que vamos saber amar

sei que vamos saber sofrer

sei quando as coisas não passam de meros desejos

mas são os desejos que movimentam o mundo e esse mundo sempre foi pequeno demais.”