Ana Pedrosa

MERCADO

lá fora estamos quebrando as paredes

que nunca sustentaram nada

aqui dentro me guardo

em inconstante construção

no escuro do silêncio

afago o peito afogado

pelas amargas cuspidas do dia

é preciso adormecer a saliva

pra engolir a manhã

se trata de uma obra inacabada

que não serve a ninguém

como o estado de coisas que colecionamos na vida lá de fora da janela

faz sol

e não poderíamos continuar

sem ele

é preciso guardar a saliva

pra digerir a manhã



O Livro


Boa chuva é meu primeiro livro lançado via editora, representando uma importância diferente na minha trajetória artística. É um livro de poemas no seu campo expandido, em cruzo com as visualidades, uma característica da minha poética. Os poemas foram tecidos junto do meu universo de experiências afetivas, espirituais, filosóficas e políticas, que atravessa uma trajetória de vida marcada pelas sabedorias da terra, atravessa o que hoje é meu campo de pesquisa e o fato de eu ser yawô - iniciada nos cosmossentidos do Candomblé.


O livro se compõe de quatro partes: nascente, pororoca, lamaçal e cabaça. Narra o trânsito simbólico das tessituras da minha vida, desde as águas doces da mata úmida interiorana de Conceição do Formoso – nascente que me pariu -,à pororoca como um movimento do encontro subjetivo entre rio e mar. O lamaçal sendo um portal ancestral para onde o mar me trouxe e a cabaça como um retorno ao útero-terra, tronco ancestral que me fez brotar existência poética.

Esse é um livro-água, que celebra minhas avós, minha mãe e minhas irmãs, que celebra a vodun Nanã como ventre primeiro, que celebra as continuidades ânimas e o que há de comum habitando nosso sensível - as correntezas que lavam e banham nossas histórias e memórias.