Luiz R. R. Silva

Rio


Conheci

Uma moça

Na nascente

Do rio.

Moça

Bonita

Do cabelo

Crespo

A pele

Preta

Sorriso

Branco.

Navegamos

Juntos

Cada qual

Em sua canoa

Toda noite

Sonhava

Contigo

E quando

Acordava

Via-te ali

Pesquei

Cantei

Escrevi

Odes mal-feitas

Arranhadas

Em uma folha

De bananeira

Escutei

Sua voz

E vez

Ou outra

Visitei

Sua canoa

No meio

Da noite

Por azar

Certo dia O rio

Se dividiu A correnteza

Me levou E a moça bonita

Pra um lado Para o outro.



O Livro


Concretude, entre o concreto e o lírico, é uma obra experimental. Quando conheci o neoconcretismo, de Ferreira Gullar, confesso que me apaixonei pela estética e pela ideia do movimento. Como poeta político, que me identifico como tal, vejo a poesia com um caráter ativo de contestação e revolta. Por isso, via problemas no neoconcretismo de Gullar. Era para mim arte erudita demais, acadêmica demais, para o entendimento de um círculo fechado e que não pretendia se abrir naturalmente a receber os seres “estranhos” e “in-queridos”.


Minha poesia sempre teve uma linguagem fácil e as minhas críticas sociais-políticas tentam ser certeiras, evidentes. Não pretendo esconder em uma linguagem rebuscada uma crítica que precisa ser certeira e atingir o alvo como chutes ao peito. Busco, embora possa parecer um pleonasmo, um novo-neoconcreto - a partir desta coletânea de poemas concretos no estilo e na dureza. Não que eu esteja tentando inaugurar uma escola literária jamais vista e pensada, não, e nem tenho gabarito para tal. Escrevo poesias e faço minhas críticas, sou estudioso das humanidades, e entre um artigo e outro, faço versos. Na realidade faço textos longos, sem formato padrão, sem rimas - que não sei fazer -, e que tentam passar algo, que em alguns casos, nem eu próprio sei o quê.